Quando Deus o atirou lá de cima nesse pequenino ponto desmatado da selva, deram-lhe o nome de Raimundo Nonato. Depois virou Mundinho..
Seu mundo era verde. Farfalhante. Transparente. Mundinho brincava com brinquedos vivos.
Seus pés jamais pisaram superfícies duras ou frias. Suas mãos acostumaram-se a apalpar formas suaves:o barro, as folhas, as plumas, as águas.
Essa convivência harmoniosa e identificada com a natureza fez com que Mundinho se transformar-se como via transformar-se os bichos, as árvores, as nuvens.
Para ele a paisagem não era um cenário. Ele mesmo era uma peça dessa paisagem. Ao mesmo tempo personagem e espectador da história que ali tinha lugar.
Quando tinha fome, virava fruta e se comia delicioso. Sentindo sede, ele mesmo se bebia doce. Se tinha sono, pegava uma nuvem qualquer do céu e se deitava nela.
Navegava nas folhas gigantes dos tajás pintados e descia oscilante os igarapés, empurrado pelo vento.
Um dia soube que já tinha dez anos e devia ajudar na pescaria. No dia seguinte bem cedo seguiu atrás dos pés rachados do pai até a canoa.
Subiram o rio. Silêncio.
Ma primeira puxada a rede veio cheia. Os peixes cintilavam agonizantes em sua beleza sufocada.
Nos ouvidos de Mundinho todos os ais do mundo. No seu coração a inauguração da dor.
Atordoado desistiu ali mesmo de ser gente e se transformou para sempre em água.
A canoa voltou cheia de peixes e da ausência do Mundinho.
Dizem que ele se afogou, mas não é verdade.
Líquido, lambe amoroso os cascos da canoas e os corpos dos que ama.
De vez em quando vira chuva.
Vira lágrima.
E nuvem.
E suor.
Leila,
ResponderExcluirQue bom te encontar. Estou ansiosa para falar com voce. Por motivos que não cabe comentar aqui fiquei sem os seus contatos. Carmô tentou, mas não conseguiu. Por favor entre em contato mgaraujo@ufam.edu.br. Estou planejando o I ENCONTRO DO NORTE DE ILUSTRADORES BOTÂNICOS e quero voce nessa "aventura".
Aguardo ansiosamente.
Um grande abraço.
Gal
P.S. Não li na íntegra a sua postagem, mas o final é muito lindo!