sábado, 2 de janeiro de 2010

MUNDINHO

Quando Deus o atirou lá de cima nesse pequenino ponto desmatado da selva, deram-lhe o nome de Raimundo Nonato. Depois virou Mundinho..
Seu mundo era verde. Farfalhante. Transparente. Mundinho brincava com brinquedos vivos.
Seus pés jamais pisaram superfícies duras ou frias. Suas mãos acostumaram-se a apalpar formas suaves:o barro, as folhas, as plumas, as águas.
Essa convivência harmoniosa e identificada com a natureza fez com que Mundinho se transformar-se como via transformar-se os bichos, as árvores, as nuvens.
Para ele a paisagem não era um cenário. Ele mesmo era uma peça dessa paisagem. Ao mesmo tempo personagem e espectador da história que ali tinha lugar.
Quando tinha fome, virava fruta e se comia delicioso. Sentindo sede, ele mesmo se bebia doce. Se tinha sono, pegava uma nuvem qualquer do céu e se deitava nela.
Navegava nas folhas gigantes dos tajás pintados e descia oscilante os igarapés, empurrado pelo vento.
Um dia soube que já tinha dez anos e devia ajudar na pescaria. No dia seguinte bem cedo seguiu atrás dos pés rachados do pai até a canoa.
Subiram o rio. Silêncio.
Ma primeira puxada a rede veio cheia. Os peixes cintilavam agonizantes em sua beleza sufocada.
Nos ouvidos de Mundinho todos os ais do mundo. No seu coração a inauguração da dor.
Atordoado desistiu ali mesmo de ser gente e se transformou para sempre em água.
A canoa voltou cheia de peixes e da ausência do Mundinho.
Dizem que ele se afogou, mas não é verdade.
Líquido, lambe amoroso os cascos da canoas e os corpos dos que ama.
De vez em quando vira chuva.
Vira lágrima.
E nuvem.
E suor.