sábado, 16 de outubro de 2010

Sabores da Terra

Nada está comprovado, mas tudo indica que a grandiosidade da floresta tem algo a ver com a distribuição generosa do alimento e dos sentimentos entre os habitantes da Amazônia.

O círculo alvo do beiju, que é preparado e consumido pelos índios de forma fraterna, pressupõe a igualdade diante da mesa e a irmandade em torno do alimento.

A abundância inesgotável dos rios, com seus peixes multiformes; as cores e os perfumes saborosos dos frutos, dão à culinária amazonense um caráter essencialíssimo, que o europeu colonizador, o gosto parisiense da época da borracha e a modernidade da Zona Franca, não conseguiram alterar.

O calor das brasas, um pouco de sal, o cheiro-verde e o toque dramático da pimenta, pontuam o paladar.

O resto fica por conta da mandioca que, transformada em farinha, sela o destino dos amazonenses.
Com tão pouco vivemos em grandes famílias, à beira dos rios, em comunhão com um mundo enorme que nos abraça solidário, oferecendo-nos a vida todos os dias.

É que o sabor é muito forte, o cheiro inesquecível. E a hospitalidade já se tornou lendária.

A comida entre as populações ribeirinhas é o fruto diário da providência divina.

À beira de um rio nada se planeja e o destino nasce na rede do pescador e no som de uma fruta, que se parte madura. O sabor ativo da carne branca e macia do peixe pede pouca interferência do tempero.

Leyla Leong é jornalista e escritora, autora dos livros "Essa Tal de Natureza", "Cida a Macaca Travessa", " João Barbosa Rodrigues e o Museu de Botânica do Amazonas"


terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

BERNADETTE ANDRADE

Conheci Berna e sua arte, pela qual me apaixonei. Durante anos, ter um quadro dela era o meu sonho de consumo artístico. Várias vezes conversamos sobre essa aquisição mas nunca chegamos a um acordo, embora ela me facilitasse os pagamentos. Não deu. Faltou grana.
Consolei-me então com uma pequena aquarela que comprei em uma das suas exposições. Lembro-me muito bem dela. Tinha um sol ao fundo e um campo de flores. Durante anos essa cena atraiu meu olhar toda vez que passava por ela. Com a claridade que invade a minha casa pelas janelas , as cores foram se esvaindo aos poucos. Por essas razões inexplicáveis da vida, elas sumiram definitivamente quando a querida Berna foi embora para sempre.
Quando organizei um pequeno portfolio com biografias dos artistas com obras no acervo do Estado, Berna deu seu depoimento, que se transformou para mim em uma grande lição de percepção artística. Nele ela diz que o seu primeiro contato com a arte foi ao ver a mãe criar flores de papel e de pano. Ao vê-la em processo de criação desejou imitá-la, tornando-se artista também.
Essa aula de arte da Berna abriu meus olhos e ampliou o meu conceito de arte.
A Secretaria da Cultura faz homenagem póstuma à artista plástica Bernadette Andrade, expondo as suas obras na galeria do Largo de São Sebastião no dia 25 de fevereiro de 2010.



sábado, 2 de janeiro de 2010

MUNDINHO

Quando Deus o atirou lá de cima nesse pequenino ponto desmatado da selva, deram-lhe o nome de Raimundo Nonato. Depois virou Mundinho..
Seu mundo era verde. Farfalhante. Transparente. Mundinho brincava com brinquedos vivos.
Seus pés jamais pisaram superfícies duras ou frias. Suas mãos acostumaram-se a apalpar formas suaves:o barro, as folhas, as plumas, as águas.
Essa convivência harmoniosa e identificada com a natureza fez com que Mundinho se transformar-se como via transformar-se os bichos, as árvores, as nuvens.
Para ele a paisagem não era um cenário. Ele mesmo era uma peça dessa paisagem. Ao mesmo tempo personagem e espectador da história que ali tinha lugar.
Quando tinha fome, virava fruta e se comia delicioso. Sentindo sede, ele mesmo se bebia doce. Se tinha sono, pegava uma nuvem qualquer do céu e se deitava nela.
Navegava nas folhas gigantes dos tajás pintados e descia oscilante os igarapés, empurrado pelo vento.
Um dia soube que já tinha dez anos e devia ajudar na pescaria. No dia seguinte bem cedo seguiu atrás dos pés rachados do pai até a canoa.
Subiram o rio. Silêncio.
Ma primeira puxada a rede veio cheia. Os peixes cintilavam agonizantes em sua beleza sufocada.
Nos ouvidos de Mundinho todos os ais do mundo. No seu coração a inauguração da dor.
Atordoado desistiu ali mesmo de ser gente e se transformou para sempre em água.
A canoa voltou cheia de peixes e da ausência do Mundinho.
Dizem que ele se afogou, mas não é verdade.
Líquido, lambe amoroso os cascos da canoas e os corpos dos que ama.
De vez em quando vira chuva.
Vira lágrima.
E nuvem.
E suor.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A PROPÓSITO DO SEXTO FESTIVAL DE TEATRO DA AMAZÔNIA

Leyla Leong

ROUBANDO A CENA
Antigamente só se entrava nesse teatro(Amazonas),de paletó e gravata. As coisas mudaram com o tempo e hoje estou aqui , de fraldão e sandália, disse o veterano ator e escritor Edney Azancoth ,da cadeira de rodas, levantando o pano que lhe cobria as pernas.
Daí para a frente, ele deu uma aula de teatro e de vida que fez o publico vibrar e aplaudi-lo longamente em cena aberta durante a abertura oficial do sexto FTA.

O PREÇO DA LIBERDADE
Na sua sexta edição o FTA abriu modestamente na sexta-feira (2 de outubro de 2009)no Largo de São Sebastião.
Modestamente, se comparado com os tapetes vermelhos e as personalidades internacionais que enfeitam os festivais de Ópera, de Cinema e de Jazz, eventos oficiais do Governo do Estado.
Para manter a sua independencia, a Federação de Teatro do Amazonas-FETAM , criadora do Festival, prefere manter a Secretaria da Cultura na condição de parceria na realização do Festival.
Dessa forma, é a "classe" que escolhe os curadores, as oficinas , os espetáculos convidados e os jurados , ficando para a SEC o pagamento das despesas com a premiação e a infraestrutura necessária à realização do evento.

A POLÊMICA
Festival de Teatro sem polêmica não vale. E nesse , claro não poderia faltar.
Dessa vez foi por causa da exclusão de alguns espetáculos por parte de Curadoria formada por mim ,Diego Molina e Ailson Braga, que optou por ressaltar a importância do FTA , momento e espaço de propostas inovadoras ,criativas e tecnicamente competentes .

AS AUSÊNCIAS
O interior do Estado não apresentou nenhum trabalho e dos demais Estados da Amazônia somente Rondônia concorreu e foi selecionado com o espetáculo Frei Molambo.

domingo, 11 de outubro de 2009

A Casa do Poeta


Jardim Yolanda , rua B, Q 2, casa 2, bairro Parque Dez de Novembro, Manaus, Amazonas.

Num final de rua, próximo a uma curva, altos pés de bambu escondem a parede. Um portão de ferro vazado em pequenos quadrados interrompe o verde.
Entrando, à direita, o consultório da psicanalista Eugênia Turenko, mulher do poeta Aníbal Beça.Entrei naquele consultório uma única vez. De cara senti a força da presença de Eugênia dominando o ambiente. "Uma rainha, pensei, em seu castelo".
A meia-luz foi aos poucos revelando cores e objetos. Em determinado momento abaixei o olhar e me emocionei: Eugênia havia posto em destaque, em uma mesinha, caixinhas de cerâmica feitas por mim. " Foi o Nibito que me deu de presente".
A casa se projeta para baixo, de forma que ao nível da rua ficava o consultório e um pequeno hall onde os pacientes esperavam para ser atendidos. A pedido de Eugênia preparei um pequeno canteiro feito com lírios da paz em vasos sobre pedras.Descendo, uma rampa leva a dois amplos espaços.
Num deles, grandes chaises-longues amarelas, uma mesa com tampo de vidro e cadeiras de ferro e vime. As paredes estão cobertas inteiramente por grandes telas, entre as quais a mais impressionante de todas, de Van Pereira, em tons dramáticos de amarelos e marrons.
Dali divisa-se a piscina onde o vento balança o trapézio usado para as sessões de hidroginástica de Eugênia. Um pátio de pedras leva ao jardim por onde ela guiava os amigos para exibir orquídeas, bromélias e árvores frutíferas.
Aos sábados pela manhã, quando a visitava, ela me levava para passear no jardim e me contava as novidades das plantas. Algumas haviam morrido, outras estavam floridas, outras precisavam de poda, outras estavam cheias de frutos.....dizia, acelerando a cadeira de rodas com o Cedê ou a Filuca olhando tudo de dentro de uma cestinha.
Ao lado da primeira sala, o espaço prossegue em abertura até a sala de jantar, onde uma mesa se oferecia para até oito amigos sentarem. De uma das cabeceiras Eugênia me ensinou a fazer o autêntico "strogonoff", com direito a degustação. Sobre aquela mesa comi carneiro, porco e até um arrozinho simples com cenoura que ela mandou fazer na hora, porque eu estava doente .
Os cachorrinhos ficavam ao lado da mesa, à espera dos pedacinhos de comida que ela lhes dava no seu próprio garfo. A primeira vez que vi aquilo me atrevi a fazer um comentário. Engênia fingiu-se ofendida e me veio com esta: "se duvidar eles são mais sadios do que muita gente!"....
Encostada à parede, uma cristaleira exibe peças avulsas de louças e porcelanas trazidas da Croácia para o trópico úmido na bagagem da elegante e enigmática Dona Ana (mãe da Eugênia), lembrava a doce infância e os antigos tempos.
A sala dá para um pátio a céu aberto, revestido de tijolos aparentes intercalados de orquídeas, bromélias e hera.. Ali se reuniam os amigos à espera do jantar e depois dele, esticando conversas. Esse pátio me lembra os reveillons do casal, para os quais tinha um convite "permanente".
Vi chover, fazer sol e anoitecer naquele pátio. Num desses dias ela me convidou para escrevermos um livro juntas. " Uma história para crianças, propôs, inspirada em algumas lendas russas".
Um corredor leva à parte íntima da casa , com escala no gabinete de Aníbal, onde os livros tomam conta do espaço desordenadamente. Sentado diante do computador onde passava a maior parte do dia, não parecia difícil localizar qualquer obra à qual estivesse se referindo no momento. Era só dar um empurrãozinho na cadeira, fazer uma pequena torção e pronto, o livro estava na mão para mostrar a você.
Nas paredes, fotos, caricaturas e quadros faziam companhia ao poeta nas suas longas horas de criação. Não se tratava de quadros meramente decorativos nem havia propriamente uma programação visual . Era algo que transcendia a estética; puro sentimento, pois todos faziam referência a amigos, momentos, lugares próximos ao coração do poeta.
Naquele pequeno universo pleno de ideias, livros, frases, bilhetes, dicionários e papéis movia-se o grande corpo do poeta e a sua imaginação , a desaguar poemas, livros inteiros, estrofes, artigos, e-mails, telefonemas, músicas......
Certo dia , ali no escritório, Aníbal me contou que a cantora que iria interpretar uma música sua no Fecani não tinha uma roupa apropriada para a ocasião. No dia seguinte apareci na casa dele levando o meu "pretinho" de grife para dar mais brilho à interpretação da moça. A menina fez bonito, a música foi vencedora e eu nunca mais vi o meu vestido.
No dia em que o Serafim o convidou para ser presidente do Conselho Municipal de Cultura ele me ligou, suponho que do seu escritório. Estava muito feliz, falou dos seus planos e me convidou para trabalhar com ele. Por algumas dessas " razões" políticas que ninguém entende,a minha nomeação nunca saiu, mas participei de todas as suas vitórias.
Perto dali, o dormitório do casal podia transformar-se em sala de visitas, dependendo da intimidade e do momento.
Quando a Eugênia fraturou algumas costelas, por exemplo, o quarto virou sala de muitas conversas. Deitados com ela na cama Cedê e Filuca ouviam tudo calados. Em uma das minhas visitas Eugênia abriu uma caixinha de onde tirou o seu colar de âmbar. " Veio da Rússia!" comemorou. Pequenas coisas! Pequenas lembranças de dois grandes amigos.