sábado, 16 de outubro de 2010

Sabores da Terra

Nada está comprovado, mas tudo indica que a grandiosidade da floresta tem algo a ver com a distribuição generosa do alimento e dos sentimentos entre os habitantes da Amazônia.

O círculo alvo do beiju, que é preparado e consumido pelos índios de forma fraterna, pressupõe a igualdade diante da mesa e a irmandade em torno do alimento.

A abundância inesgotável dos rios, com seus peixes multiformes; as cores e os perfumes saborosos dos frutos, dão à culinária amazonense um caráter essencialíssimo, que o europeu colonizador, o gosto parisiense da época da borracha e a modernidade da Zona Franca, não conseguiram alterar.

O calor das brasas, um pouco de sal, o cheiro-verde e o toque dramático da pimenta, pontuam o paladar.

O resto fica por conta da mandioca que, transformada em farinha, sela o destino dos amazonenses.
Com tão pouco vivemos em grandes famílias, à beira dos rios, em comunhão com um mundo enorme que nos abraça solidário, oferecendo-nos a vida todos os dias.

É que o sabor é muito forte, o cheiro inesquecível. E a hospitalidade já se tornou lendária.

A comida entre as populações ribeirinhas é o fruto diário da providência divina.

À beira de um rio nada se planeja e o destino nasce na rede do pescador e no som de uma fruta, que se parte madura. O sabor ativo da carne branca e macia do peixe pede pouca interferência do tempero.

Leyla Leong é jornalista e escritora, autora dos livros "Essa Tal de Natureza", "Cida a Macaca Travessa", " João Barbosa Rodrigues e o Museu de Botânica do Amazonas"


2 comentários:

  1. Delícia essa abordagem de Leyla, sobre a riqueza de alimentos que a natureza nos presenteia.

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  2. Muito delicioso esse seu texto sobre Sabores da Terra. Estou salivando.O "cheiro inesquecível" do mari, do cupuaçu, do pé-de-moleque com castanha. Divinos!
    Irinéia Coêlho

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